24 de dez de 2016

Druuna e um Feliz Natal e próspero Ano Novo [ Última postagem do ano ] // Boicotando editoras [ Reflexão gratuita ]

Morbus Santa Gravis.
Minha última postagem de 2014 teve um tom sensual. Já a do ano anterior foi mais voltada ao espírito natalino e à introspecção. Aqui, lavarei minhas mãos como Pôncio Pilatos e deixarei tudo a cargo da mais sacana e sedutora personagem de nossa amada e estupidamente chamada "nona arte". Assim, aproveito de maneira quádrupla esta postagem: 1. da uma movimentada no blog, 2. sugerir a leitura de edições especiais da Heavy Metal (de graça), 3. cutucar nossas editoras nacionais e as gigantes gringas e 4. desejar um Feliz Natal e próspero Ano Novo.

Druuna é daqueles casos emblemáticos no mundo editorial brasileiro que nos ajudar a decidir por não gastar mais grana com quadrinhos e sobreviver de scans piratas. Acho difícil alguém desconhecer a personagem; ao menos, quem gosta de gibis. Para um breve resumo, vamos lá: trata-se da criação de Paolo Eleuteri Serpieri, um dos três grandes italianos daquela conhecida tríade da sacanagem nos quadrinhos, ao lado de Manara e Crepax. Confesso de antemão que, entre os três, fico primeiramente com Crepax, deixando Serpieri logo em segundo. Manara é dono de um traço exuberante, claro; mas seus colegas, além de traços igualmente fodas, também possuem uma qualidade meio ausente na maioria dos trabalho do Milo: bons roteiros e argumentos, via de regra, instigantes. Mesmo assim, isso não importa tanto. Afinal, este é meu ranking pessoal entre os chamados "três melhores". Cada um mantem o seu.

Druuna é uma trama fantástica, puro sci-fi erótico, onde a protagonista homônima empreende diversas jornadas interestelares para salvar o remanescente humano de doenças bizarras, inteligência artificial com mania de messias, uma super inteligência humana que deseja morrer, tarados de toda a ordem e até mesmo de uma entidade alienígena vinda de fora de nosso universo. E, em praticamente todas as aventuras, ela não encontra tempo para vestir roupas decentes, encarando os maiores desafios da humanidade com micro-calcinha e camiseta sem sutiã; ou, dependendo do tempo, nua em pelo.

Alguns brasileiros mencionam erroneamente que a aventureira desinibida foi inspirada na brasileira Ana Lima. Isso, contudo, não procede. O boato se deve ao fato da semelhança entre ambas e ao ensaio realizado na Playboy de 1989 (imagem abaixo). A inspiração não foi específica sobre ninguém. O artista, entretanto, sempre deixou claro que Druuna teria muito da atriz francesa Valérie Kaprisky. Mas que a Pantera de 1989 tem muito mais a ver, sem dúvidas.


Na postagem mencionada mais acima, ainda no ano de 2014, comecei a abordar no blogue acerca desse aspecto consumista da maioria dos leitores e colecionadores em geral. Ali, afirmei que compraria menos, destacando, todavia, o seguinte: "Só não caio de vez nos quadrinhos digitais porque sou eterno adepto (dinossauro) do material impresso e acredito que o artista precisa ser valorizado, de maneira que me sinto bem quando pago pela aquisição de gibis." Isso mudou. Já não me sinto tão bem quando gasto meu suado dinheiro adquirindo publicações e, além disso, penso que alguns artistas não merecem ser retribuídos pelo seu trabalho. Explicarei brevemente.

Quem ainda não cansou da invasão dos quadrinhos pela pauta progressista psicopata? Apenas quem não consome HQs e quer apenas fazer valer sua vontade na base do grito, ora. Coletivos feministas negros não darão atenção a gibis por tornarem Jean Grey uma feminazi afrodescendente empoderada em busca da cobrança da alegada dívida histórica. Não ouvi registros de que mais gays estariam interessados em revistas Marvel após Wolverine e Bobby Drake agora curtirem homens. Apenas a pauta esquerdista (que no fundo está se lixando para o bem de gays e negros, e os troca todos pelo Islã, se possível, que realmente possui poder de fogo para abalar os três pilares da civilização ocidental) foi atendida. Mas ao custo de desconfigurar personagens antológicos. Isso não é bacana com os fãs, com os caras que realmente consomem quadrinhos há décadas. Isso é oportunismo escroto. A "nova" sacada dos roteiristas esquizofrênicos, agora, é problematizar a origem de Batman. Não bastar ter os pais assassinados, força de vontade, treino e muita grana para enfrentar o crime vestido de morcego. Bruce, agora, possui tentativa de suicídio na ficha corrida. Olha, pelo andar das coisas, acho que foram lentos. Deveriam dar um passo maior nessa agenda progressista dos quadrinhos. Eu mesmo quero, agora, um Batman órfão de pais gays, sendo um deles uma mulher trans com nanismo, vítimas da homofobia nos becos sujos de Gotham. O Coringa será conservador reacionário e eleitor de Trump, perpetrando crimes homofóbicos e xenofóbicos. Ah, e gordo. Batman deve ser gordão para ajudar na luta contra a gordofobia. Se não for assim, não vale.

Batman contra a gordofobia, já!
A indústria fonográfica quebrou por, antes de tudo, nos ferrar. Recordo quando um CD duplo de rock (nacional ou não) atingia facilmente o valor equivalente a um salário mínimo, lá pela minha adolescência. Já pensou, hoje em dia, você desembolsar mais de oitocentos reais em Canções para Acampamento de Legião Urbana? Após o Napster e sua fracassada plataforma meio centralizadora, mandachuvas do setor começaram a tremer nas bases. Com o desmonte do sistema, tudo ficou ainda melhor (para nós, garotos ferrados). Bastou menos de ano para baixar tudo num sistema mais sofisticado de P2P, com programinhas saudosos como eMule e Kazaa, por exemplo. Para o torrent, foi rapidão. E assim tiveram o que sempre pediram e mereceram. E os artistas? Bem... se valeram do mercado e muitos aproveitaram bem. Os mais gastadores, hoje, precisam rodar em estradas e pequenos países (se estrelas internacionais) para manter o elevado padrão de vida. Afinal, não são astros da música que endossam políticas ditas progressistas? É bom mesmo suarem mais um pouco para pagar tributos. Nada é tão gratificante quanto ver Alanis Morissette cantando no calor escaldante de Teresina. A bancarrota da indústria fonográfica democratizou os astros do rock.

Grandes editoras nos sacaneiam há décadas de várias maneiras, como citei mais acima no caso de Druuna. E, mais recentemente, encontraram outra forma de nos ferrar: adotando agendas de grupos políticos e forças econômicas para nos empurrar goela abaixo tramas e personagens que não queremos. Isso especialmente no caso de HQs. Mas com reflexos em livros. Tudo encontra ressonância nas editoras brasileiras. Assim, por exemplo, a "progressista" Companhia das Letras mantém listas de espera de obras boas e aguardadas para priorizar títulos como a biografia panfletária Marighella - o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo. Pois é. Contudo, se ler em ecrãs de PC ou laptops é um saco, devices como Kindle e Kobo mudaram isso. A leitura agradável e economia de bateria do sistema com e-ink alteraram o setor drasticamente. Até dinossauros do papel, como este que escreve, adotaram bem a nova maneira de ler. E, com tablets baratos, ora, chegaram a vez dos quadrinhos. O amor tátil dos livros é superável. Em minha casa, tínhamos uma penca de vinil. Era gostoso admirar as artes das capas dos discos, puxar encartes e lê-los, assim como o ato de inserir o bolachão na radiola. Com CDs, foi o mesmo: uma nova forma de apego sensorial. Entretanto, tudo substituível pela facilidade de carregar centenas de músicas, de graça, num CD-R. Hoje, milhares de músicas num minúsculos pendrive.

Como afirmei mais acima, não me estenderei tanto aqui. Só quis expor a banana que ando dando ao mercado editorial. Ficam os meus Feliz Natal e bom Ano Novo para todos que aqui chegarem. E, ainda quanto a Druuna, confiram gratuitamente suas HQs neste link.

Abraços, camaradas! E que Deus os abençoe.

P.S.: Fique bem, em paz e seja feliz, M.M.. Você merece!

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4 de dez de 2016

Meridiano de Sangue ou O rubor crepuscular no Oeste [ Romance de Cormac McCarthy ]

Beba. Esta noite pode acontecer de tua alma te ser reclamada. (Juiz Holden)
Um antigo imbróglio americano é o pretenso direito da "grande nação" Sioux sobre a ocupação plena, como suprema detentora de todos e inalienáveis direitos, sobre uma vasta propriedade há séculos ocupada e desenvolvida pelos suor e sangue de gerações de norte americanos. Contudo, diante da aparente quebra de cláusulas do Segundo Tratado Fort Laramie (não pesquisei a fundo o assunto), o remanescente indígena - se é que isso ainda existe realmente - foi indenizado pela Suprema Corte ao que hoje corresponderia a algo em torno de 01 (um) bilhão de dólares. Eles rejeitaram a grana, pois querem a terra, vez que de bobos não têm nada. E esse problema se arrasta até hoje. Contudo, muitas pessoas questionam: "Ora, os Sioux não viveram sempre ali, naquela região. Há registros de ocupações sucessivas por até três povos distintos antes da chegada dos litigantes. E quantas mais etnias não se sucederam no local, das quais nunca teremos registros? Por que essa "grande nação" seria detentora de direitos sobre a região de maneira até mesmo a não transigir numa ação bilionária contra o Governo do USA, batendo o pé de forma inexorável?". As respostas para essas indagações nunca virão, pois a "tomada" de terras de índios bons por brancos maus faz parte da cultuada "vergonha americana", dentro dos círculos midiáticos e universitários progressistas.

Fato curioso é que a criação de reservas indígenas, quebra de acordo de demarcação de terras, vendas fraudulentas de propriedades e remoções "voluntárias" e forçadas de contingentes indígenas são políticas do Partido Democrata americano, sob os auspícios do grande senhor de escravos, advogado e político Andrew Jackson, sétimo Presidente dos Estados Unidos. E, hoje, a descendência desses indígenas dão suporte ao Partido... Democrata. Isso ajuda a compreendermos o nível de entropia e insanidade em que este planeta se encontra.

Por que escrevi os parágrafos acima? Apenas para esclarecer que não apenas a história americana, mas a história humana é uma narrativa de conquistas sucessivas. Não podemos "devolver" a Amazônia aos índios assim como as terras de Black Hills onde se encontra o célebre Mount Rushmore com as efígies dos founding fathers não podem ser dadas embrulhadas de presente aos Sioux, que, por sua vez, se instalaram no local às custas do derramamento de sangue nações indígenas anteriores. No curso da História até os dias de hoje, onde ao menos tentamos coabitar sob um verniz de civilidade, não houve bandidos ou mocinhos. Tudo fez parte da evolução natural de povos em ocupar as regiões mais recônditas do planeta de acordo com as possibilidades tecnológicas disponíveis a cada época. Cormac McCarthy não se expressa dessa maneira em sua opus magnum Meridiano de Sangue. Contudo, penso ter tudo a ver com os dramas de sangue ali brilhantemente narrados. Na evolução natural das espécies, todos buscam um lugar ao sol e perpetuar-se. Outros foram apenas infelizes errantes que, soltos à própria sorte em territórios inóspitos, apostaram a vida para fundar o que hoje se tornou a nação mais próspera da história. É sobre esses infelizes que trata o romance aqui abordado.

Cormac McCarthy me ajudou a burilar certa visão de mundo com a qual me travava há alguns anos. Ainda penso que essa produção de riquezas proporcionada pelo regime de mercado no apogeu do capitalismo ruirá em breve. Estes últimos séculos foram apenas um desvio no curso natural das coisas e não necessariamente estamos em evolução constante para melhor. Creio que o futuro não será muito diferente do que vemos em Mad Max e, dependendo da natureza, talvez tão aterrador quanto o descrito no romance A Estrada, também de McCarthy. Nunca comunguei com parasitas sonhadores como Rousseau, onde o homem seria "essencialmente bom". Nascemos contaminados pelo pecado original e, naturalmente, em estado de competição feroz, abandonamos essa casca de empatia que nos foi dada pela cômoda vida proporcionada pelo capitalismo, onde, hoje, qualquer moleque classe média baixa tem uma vida mais confortável do que um antigo rei (pequenos luxos como energia elétrica, internet, água encanada, transporte público, aspirina e preservativos). O que um monarca antigo não daria em troca de penicilina, por exemplo? O humano em estado natural, ao léu, nunca foi tão bem representado como n'O Senhor das Moscas de William Golding. Para chegarmos à existência revelada n'A Estrada, precisamos apenas de um ano sem supermercados e sem energia elétrica. Em dois anos, talvez o remanescente humano seja menor do que o dos ursos pandas. Mesmo gostando tanto de Cormac McCarthy como falei, resenhei aqui, até hoje, apenas um romance seu: Onde Os Velhos Não Têm Vez. Pretendo corrigir esta omissão. Começarei a tratar disso com esta postagem.


O mote por trás da trama é aparentemente simples: um garoto conhecido apenas como "kid" sai de casa em busca de ganhar a vida pelo oeste americano, na metade no século XIX. Se alia a dois bandos, um deles comandados por John Joel Glanton. Na trilha por sobrevivência, mulheres, uísque e fortuna, caçam escalpos para, em dados territórios, recolherem as recompensas oferecidas. É neste bando que ele conhece o Juiz Holden, figura instigante e amedrontadora que fascina pelo seu conhecimento e nos gela a alma por sua crueldade. O grupo é bem representativo e evidencia que, na busca por mucha plata, não havia mocinhos. Assim, o kid convive com mexicanos, "negroides" e etnias nativas num mesmo mini exército sanguinário. Os inimigos são os de fora do bando. Como bem pregado pelo Juiz: "O que une os homens, disse, não é a partilha do pão mas a partilha dos inimigos". O romance é denso. O estilo do escritor já foi mencionado por mim neste blogue. Por ele não separar bem os diálogos dentro da narrativa, você pode facilmente se perder se não estiver atento à leitura. Logo, nossa visão de "velho oeste" disputado por esbeltos cavaleiros com roupas de couro e grandes chapéus é substituída pela visão aterradora de maltrapilhos imundos chafurdando num lodaçal de sangue, vísceras e misérias de toda a ordem.

O mais próximo que podemos rotular de protagonista é o "kid". Contudo, foi o Juiz Holden a personagem mais marcante da trama, encoberto de aspectos quase sobrenaturais. Não sabemos ao certo sua origem. Na verdade, não sabemos bem nem se é humano. Seu primeiro contato com o bando sanguinário (do qual o kid faz parte) é esquisito: está bem vestido, sentado no meio do nada sobre seus pertences, como se fosse a sina do grupo topar com ele. Um homem pragmático que sabe se virar bem na vida árida e selvagem, sem dó de ninguém. Capaz de extrair pólvora das rochas identificando cada elemento, escalpela um mexicano com esmero e sabe carnear mulas com a mesma desenvoltura com que fala alemão, espanhol, francês e línguas mortas. Às vezes percebo que Randall Flagg de Stephen King (confira mais aqui) tomou elementos sobrenaturais emprestados do Juiz de McCarthy. Lembrando que King é um entusiasmado fã de seu conterrâneo e, em Meridiano de Sangue, topamos brevemente com um estranho personagem chamado pelos colegas de Randall. Noutros momentos, Holden me lembra antigos filósofos gregos em sua ânsia pela catalogação do conhecimento e das coisas. Aristóteles pedia a seu aluno Alexandre Magno, por exemplo, que recolhesse, em suas conquistas, materiais de culturas distantes e as trouxesse para ser estudadas. O Juiz anda sempre com seu livro anotando tudo o que encontra nas andanças, desenhando objetos e inscrições em rochas, pesando, cheirando e extraindo dados. Acerca disso, ele esclarece em dado momento: "Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará do modo apropriado suserano da terra." Penso que esta passagem, por si só, é mais do que emblemática.

Muitos leitores destacam Holden como um dos personagens mais assustadores da literatura. De fato, por sua grande cultura e atitudes pontuais narradas no decorrer da obra, poderia ser. No entanto, percebi-o como um homem, na verdade, apaixonado pela vida e pelas coisas do mundo, querendo compreendê-las e, assim, dominá-las. Se ele abate um cavalo com pedradas no crânio e o destrincha sem dó algum, é porque tem fome e está no deserto. Ele escalpela porque essa é regra, e uma vez em roma faça como os romanos. Penso que Glanton, sim, é merecedor do título de "mais assustador". O líder do bando, pois, é indiferente à vida em todos os seus aspectos, até mesmo no momento de sua própria morte. Trata-se de um ser humano essencialmente cruel, em estado puro. A personagem ficcional foi inspirada na histórica - ex Texas Ranger que se tornou mercenário e caçador de escalpos. A passagem abaixo talvez ilustre bem a natureza desse homem de armas.
(...) os cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalmente para matá-los com sua faca, uma cena fantasmagórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio exceto pelo entrechocar de seus dentes, arrastando-se no chão como focas ou outras criaturas e encolhendo-se junto às paredes enquanto Glanton caminhava de um em um e abria seus crânios com a imensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto.
John Joel Glanton é o oeste americano, onde a morte quase sempre não é a simples passagem. A rigor, a morte é cruel, seja pelas condições áridas de vida ou, mesmo, por meios infligidos pelas mãos dos homens. Num ambiente onde a vida é dura, a morte precisa superar-se. Sejam brancos, negros, índios ou mexicanos, todos os que se aventuram nas planícies ermas trazem o mal no coração e o destino do inimigo deve ser exemplar:
Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de uma paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de madeira verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos onde haviam sido assados até as cabeças ficarem carbonizadas e os miolos ferverem por dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas e tiveram as orelhas arrancadas e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos.
Um dos hábito de chacina mais comuns entre os nativos, entretanto, era a execução de bebês. No bando de Glanton, por exemplo, apenas os integrantes delawares costumavam executar de maneira cruel os bebês de povoamentos invadidos.
(...) um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com os restos de comida e os balançou pelos calcanhares um de cada vez e esmagou suas cabeças contra as paredes de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento (...).
(...)
O caminho foi se estreitando entre rochedos e após algum tempo chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete, oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam desse modo penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis para fitar cegamente o céu nu.
(...)
passando por uma área coberta de ossos onde soldados mexicanos haviam massacrado um acampamento apache alguns anos antes, mulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por mais de meio quilômetros e os membros minúsculos e crânios de papel desdentados de bebês como a ossatura de pequenos macacos no local do morticínio e velhos restos de cestaria exposta à intempérie e os potes quebrados no cascalho.
Durante toda a leitura, você se dá conta como tem uma vida molenga e mesmo assim às vezes reclama de barriga cheia. Colonos, índios e mexicanos se movem por dias sem água suficiente, comida que não passe de tiras de carne seca e dormindo no frio à noite enquanto enfrentam temperaturas elevadas pela manhã. Acendem seus cachimbos com brasas de fogueira (isso quando conseguem fumo) e se deleitam quando topam com uísque: "A primeira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda tabaco". Mulheres e crianças são naturalmente mais indefesas e não raro as primeiras que sucumbem nas travessias em caravanas e nas invasões dos pequenos povoamentos. Enquanto, hoje, você chega do trabalho cansado do trânsito e resmunga com a janta que demora cinco minutos para ficar pronta no microondas, no ar condicionado assistindo a Netflix, os empreendedores da expansão humana rumo ao oeste americano encontravam essa sorte:
Cinco carroções fumegavam no solo do deserto e os cavaleiros desmontaram e caminharam em silêncio entre os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nome entre as pedras com seus terríveis ferimentos, as vísceras esparramando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns pela barba eram homem e contudo ostentavam entre as pernas estranhas chagas menstruais e não as parte masculinas pois estas haviam sido amputadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes.
Ratifico o que mencionei mais acima sobre o vidão que possuímos hoje, proporcionado pelo regime de mercado e a busca do pleno emprego, pela iniciativa privada que produz e distribui mais riquezas do que tivemos em milhares de anos de civilizações. Contudo, isso parece ser passageiro. Acredito que uma vida constantemente próspera e a produção de bens e serviços para consumo por cada vez mais gente encontre, em breve, uma regressão ou colapso total. De alguma forma, a possível hecatombe dessa pujante melhoria de vida global não se coaduna com a natureza humana, autofágica. E, no admirável mundo que se desponta, os fracos não terão vez. Ler Cormac McCarthy me ajuda a compreender melhor tudo isso.

A edição eletrônica que li no Kobo foi da Alfaguara, selo da Objetiva para chamada "alta" literatura. São 350 páginas com tradução de Cássio de Arantes Leite no padrão de publicações típico do selo: brochura resistente, com orelhas. O papel tem uma gramatura boa e não permite que vejamos as letras através das páginas; além disso, é daquele mais amarelado, que não cansa a visão; tipo pólen soft. Também pela Alfaguara já recomendei, aqui, O Mestre e Margarida.

Fico por aqui.

Abraços!


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