4 de dez de 2016

Meridiano de Sangue ou O rubor crepuscular no Oeste [ Romance de Cormac McCarthy ]

Beba. Esta noite pode acontecer de tua alma te ser reclamada. (Juiz Holden)
Um antigo imbróglio americano é o pretenso direito da "grande nação" Sioux sobre a ocupação plena, como suprema detentora de todos e inalienáveis direitos, sobre uma vasta propriedade há séculos ocupada e desenvolvida pelos suor e sangue de gerações de norte americanos. Contudo, diante da aparente quebra de cláusulas do Segundo Tratado Fort Laramie (não pesquisei a fundo o assunto), o remanescente indígena - se é que isso ainda existe realmente - foi indenizado pela Suprema Corte ao que hoje corresponderia a algo em torno de 01 (um) bilhão de dólares. Eles rejeitaram a grana, pois querem a terra, vez que de bobos não têm nada. E esse problema se arrasta até hoje. Contudo, muitas pessoas questionam: "Ora, os Sioux não viveram sempre ali, naquela região. Há registros de ocupações sucessivas por até três povos distintos antes da chegada dos litigantes. E quantas mais etnias não se sucederam no local, das quais nunca teremos registros? Por que essa "grande nação" seria detentora de direitos sobre a região de maneira até mesmo a não transigir numa ação bilionária contra o Governo do USA, batendo o pé de forma inexorável?". As respostas para essas indagações nunca virão, pois a "tomada" de terras de índios bons por brancos maus faz parte da cultuada "vergonha americana", dentro dos círculos midiáticos e universitários progressistas.

Fato curioso é que a criação de reservas indígenas, quebra de acordo de demarcação de terras, vendas fraudulentas de propriedades e remoções "voluntárias" e forçadas de contingentes indígenas são políticas do Partido Democrata americano, sob os auspícios do grande senhor de escravos, advogado e político Andrew Jackson, sétimo Presidente dos Estados Unidos. E, hoje, a descendência desses indígenas dão suporte ao Partido... Democrata. Isso ajuda a compreendermos o nível de entropia e insanidade em que este planeta se encontra.

Por que escrevi os parágrafos acima? Apenas para esclarecer que não apenas a história americana, mas a história humana é uma narrativa de conquistas sucessivas. Não podemos "devolver" a Amazônia aos índios assim como as terras de Black Hills onde se encontra o célebre Mount Rushmore com as efígies dos founding fathers não podem ser dadas embrulhadas de presente aos Sioux, que, por sua vez, se instalaram no local às custas do derramamento de sangue nações indígenas anteriores. No curso da História até os dias de hoje, onde ao menos tentamos coabitar sob um verniz de civilidade, não houve bandidos ou mocinhos. Tudo fez parte da evolução natural de povos em ocupar as regiões mais recônditas do planeta de acordo com as possibilidades tecnológicas disponíveis a cada época. Cormac McCarthy não se expressa dessa maneira em sua opus magnum Meridiano de Sangue. Contudo, penso ter tudo a ver com os dramas de sangue ali brilhantemente narrados. Na evolução natural das espécies, todos buscam um lugar ao sol e perpetuar-se. Outros foram apenas infelizes errantes que, soltos à própria sorte em territórios inóspitos, apostaram a vida para fundar o que hoje se tornou a nação mais próspera da história. É sobre esses infelizes que trata o romance aqui abordado.

Cormac McCarthy me ajudou a burilar certa visão de mundo com a qual me travava há alguns anos. Ainda penso que essa produção de riquezas proporcionada pelo regime de mercado no apogeu do capitalismo ruirá em breve. Estes últimos séculos foram apenas um desvio no curso natural das coisas e não necessariamente estamos em evolução constante para melhor. Creio que o futuro não será muito diferente do que vemos em Mad Max e, dependendo da natureza, talvez tão aterrador quanto o descrito no romance A Estrada, também de McCarthy. Nunca comunguei com parasitas sonhadores como Rousseau, onde o homem seria "essencialmente bom". Nascemos contaminados pelo pecado original e, naturalmente, em estado de competição feroz, abandonamos essa casca de empatia que nos foi dada pela cômoda vida proporcionada pelo capitalismo, onde, hoje, qualquer moleque classe média baixa tem uma vida mais confortável do que um antigo rei (pequenos luxos como energia elétrica, internet, água encanada, transporte público, aspirina e preservativos). O que um monarca antigo não daria em troca de penicilina, por exemplo? O humano em estado natural, ao léu, nunca foi tão bem representado como n'O Senhor das Moscas de William Golding. Para chegarmos à existência revelada n'A Estrada, precisamos apenas de um ano sem supermercados e sem energia elétrica. Em dois anos, talvez o remanescente humano seja menor do que o dos ursos pandas. Mesmo gostando tanto de Cormac McCarthy como falei, resenhei aqui, até hoje, apenas um romance seu: Onde Os Velhos Não Têm Vez. Pretendo corrigir esta omissão. Começarei a tratar disso com esta postagem.


O mote por trás da trama é aparentemente simples: um garoto conhecido apenas como "kid" sai de casa em busca de ganhar a vida pelo oeste americano, na metade no século XIX. Se alia a dois bandos, um deles comandados por John Joel Glanton. Na trilha por sobrevivência, mulheres, uísque e fortuna, caçam escalpos para, em dados territórios, recolherem as recompensas oferecidas. É neste bando que ele conhece o Juiz Holden, figura instigante e amedrontadora que fascina pelo seu conhecimento e nos gela a alma por sua crueldade. O grupo é bem representativo e evidencia que, na busca por mucha plata, não havia mocinhos. Assim, o kid convive com mexicanos, "negroides" e etnias nativas num mesmo mini exército sanguinário. Os inimigos são os de fora do bando. Como bem pregado pelo Juiz: "O que une os homens, disse, não é a partilha do pão mas a partilha dos inimigos". O romance é denso. O estilo do escritor já foi mencionado por mim neste blogue. Por ele não separar bem os diálogos dentro da narrativa, você pode facilmente se perder se não estiver atento à leitura. Logo, nossa visão de "velho oeste" disputado por esbeltos cavaleiros com roupas de couro e grandes chapéus é substituída pela visão aterradora de maltrapilhos imundos chafurdando num lodaçal de sangue, vísceras e misérias de toda a ordem.

O mais próximo que podemos rotular de protagonista é o "kid". Contudo, foi o Juiz Holden a personagem mais marcante da trama, encoberto de aspectos quase sobrenaturais. Não sabemos ao certo sua origem. Na verdade, não sabemos bem nem se é humano. Seu primeiro contato com o bando sanguinário (do qual o kid faz parte) é esquisito: está bem vestido, sentado no meio do nada sobre seus pertences, como se fosse a sina do grupo topar com ele. Um homem pragmático que sabe se virar bem na vida árida e selvagem, sem dó de ninguém. Capaz de extrair pólvora das rochas identificando cada elemento, escalpela um mexicano com esmero e sabe carnear mulas com a mesma desenvoltura com que fala alemão, espanhol, francês e línguas mortas. Às vezes percebo que Randall Flagg de Stephen King (confira mais aqui) tomou elementos sobrenaturais emprestados do Juiz de McCarthy. Lembrando que King é um entusiasmado fã de seu conterrâneo e, em Meridiano de Sangue, topamos brevemente com um estranho personagem chamado pelos colegas de Randall. Noutros momentos, Holden me lembra antigos filósofos gregos em sua ânsia pela catalogação do conhecimento e das coisas. Aristóteles pedia a seu aluno Alexandre Magno, por exemplo, que recolhesse, em suas conquistas, materiais de culturas distantes e as trouxesse para ser estudadas. O Juiz anda sempre com seu livro anotando tudo o que encontra nas andanças, desenhando objetos e inscrições em rochas, pesando, cheirando e extraindo dados. Acerca disso, ele esclarece em dado momento: "Só a natureza pode escravizar o homem e só quando a existência da última entidade tiver sido desencavada e exposta diante dele é que ele se tornará do modo apropriado suserano da terra." Penso que esta passagem, por si só, é mais do que emblemática.

Muitos leitores destacam Holden como um dos personagens mais assustadores da literatura. De fato, por sua grande cultura e atitudes pontuais narradas no decorrer da obra, poderia ser. No entanto, percebi-o como um homem, na verdade, apaixonado pela vida e pelas coisas do mundo, querendo compreendê-las e, assim, dominá-las. Se ele abate um cavalo com pedradas no crânio e o destrincha sem dó algum, é porque tem fome e está no deserto. Ele escalpela porque essa é regra, e uma vez em roma faça como os romanos. Penso que Glanton, sim, é merecedor do título de "mais assustador". O líder do bando, pois, é indiferente à vida em todos os seus aspectos, até mesmo no momento de sua própria morte. Trata-se de um ser humano essencialmente cruel, em estado puro. A personagem ficcional foi inspirada na histórica - ex Texas Ranger que se tornou mercenário e caçador de escalpos. A passagem abaixo talvez ilustre bem a natureza desse homem de armas.
(...) os cães feridos uivaram e se arrastaram em torno até Glanton sair pessoalmente para matá-los com sua faca, uma cena fantasmagórica à luz oscilante, os cães feridos em silêncio exceto pelo entrechocar de seus dentes, arrastando-se no chão como focas ou outras criaturas e encolhendo-se junto às paredes enquanto Glanton caminhava de um em um e abria seus crânios com a imensa faca guarnecida de cobre que levava no cinto.
John Joel Glanton é o oeste americano, onde a morte quase sempre não é a simples passagem. A rigor, a morte é cruel, seja pelas condições áridas de vida ou, mesmo, por meios infligidos pelas mãos dos homens. Num ambiente onde a vida é dura, a morte precisa superar-se. Sejam brancos, negros, índios ou mexicanos, todos os que se aventuram nas planícies ermas trazem o mal no coração e o destino do inimigo deve ser exemplar:
Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo pelas pernas nos galhos de uma paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares perfurados por agulhas afiadas de madeira verde e pendiam cinzentos e nus sobre as cinzas dos carvões extintos onde haviam sido assados até as cabeças ficarem carbonizadas e os miolos ferverem por dentro do crânio e o vapor sair assobiando por suas narinas. Suas línguas haviam sido puxadas para fora e trespassadas com paus afiados e esticadas e tiveram as orelhas arrancadas e seus torsos foram abertos com sílex até as entranhas ficarem penduradas em seus peitos.
Um dos hábito de chacina mais comuns entre os nativos, entretanto, era a execução de bebês. No bando de Glanton, por exemplo, apenas os integrantes delawares costumavam executar de maneira cruel os bebês de povoamentos invadidos.
(...) um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com os restos de comida e os balançou pelos calcanhares um de cada vez e esmagou suas cabeças contra as paredes de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento (...).
(...)
O caminho foi se estreitando entre rochedos e após algum tempo chegaram a um arbusto de cujos ramos pendiam bebês mortos. Pararam lado a lado, hesitantes sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete, oito delas, haviam sido perfuradas no maxilar inferior e estavam desse modo penduradas pelas gargantas nos galhos partidos de um pé de prosópis para fitar cegamente o céu nu.
(...)
passando por uma área coberta de ossos onde soldados mexicanos haviam massacrado um acampamento apache alguns anos antes, mulheres e seus filhos, os ossos e crânios espalhados pelo terraço por mais de meio quilômetros e os membros minúsculos e crânios de papel desdentados de bebês como a ossatura de pequenos macacos no local do morticínio e velhos restos de cestaria exposta à intempérie e os potes quebrados no cascalho.
Durante toda a leitura, você se dá conta como tem uma vida molenga e mesmo assim às vezes reclama de barriga cheia. Colonos, índios e mexicanos se movem por dias sem água suficiente, comida que não passe de tiras de carne seca e dormindo no frio à noite enquanto enfrentam temperaturas elevadas pela manhã. Acedem seus cachimbos com brasas de fogueira (isso quando conseguem fumo) e se deleitam quando topam com uísque: "A primeira coisa pela qual perguntaram foi uísque e a segunda tabaco". Mulheres e crianças são naturalmente mais indefesas e não raro as primeiras que sucumbem nas travessias em caravanas e nas invasões dos pequenos povoamentos. Enquanto, hoje, você chega do trabalho cansado do trânsito e resmunga com a janta que demora cinco minutos para ficar pronta no microondas, no ar condicionado assistindo a Netflix, os empreendedores da expansão humana rumo ao oeste americano encontravam essa sorte:
Cinco carroções fumegavam no solo do deserto e os cavaleiros desmontaram e caminharam em silêncio entre os corpos dos argonautas, aqueles probos peregrinos sem nome entre as pedras com seus terríveis ferimentos, as vísceras esparramando-se por seus flancos e os troncos nus crivados de flechas. Alguns pela barba eram homem e contudo ostentavam entre as pernas estranhas chagas menstruais e não as parte masculinas pois estas haviam sido amputadas e pendiam escuras e estranhas de suas bocas sorridentes.
Ratifico o que mencionei mais acima sobre o vidão que possuímos hoje, proporcionado pelo regime de mercado e a busca do pleno emprego, pela iniciativa privada que produz e distribui mais riquezas do que tivemos em milhares de anos de civilizações. Contudo, isso parece ser passageiro. Acredito que uma vida constantemente próspera e a produção de bens e serviços para consumo por cada vez mais gente encontre, em breve, uma regressão ou colapso total. De alguma forma, a possível hecatombe dessa pujante melhoria de vida global não se coaduna com a natureza humana, autofágica. E, no admirável mundo que se desponta, os fracos não terão vez. Ler Cormac McCarthy me ajuda a compreender melhor tudo isso.

A edição eletrônica que li no Kobo foi da Alfaguara, selo da Objetiva para chamada "alta" literatura. São 350 páginas com tradução de Cássio de Arantes Leite no padrão de publicações típico do selo: brochura resistente, com orelhas. O papel tem uma gramatura boa e não permite que vejamos as letras através das páginas; além disso, é daquele mais amarelado, que não cansa a visão; tipo pólen soft. Também pela Alfaguara já recomendei, aqui, O Mestre e Margarida.

Fico por aqui.

Abraços!


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17 de nov de 2016

Cobra [ Cinema / HQ ] e um poucos acerca dos quadrinhos nacionais de terror [ Momento Nostalgia ]


Você é uma doença.
(Cobretti, Marion - 1986)

Comentei o trabalho de Watson Portela aqui há quase cinco anos, quando recomendei a leitura de sua série Paralela(s). Leio muito HQ nacional das antigas. É difícil encontrar revistas em bom estado em sebos, ainda mais a bons preços. Títulos como Calafrio e Spektro, por exemplo, em estado regular, são vendidos por mais de R$ 50,00 em sebos e em vendedores individuais. Se estão caros ou não, prefiro não comentar tanto. Afinal: cada um vende pelo preço que quiser; e não posso ser hipócrita, pois tenho carinho pela minha coleção e a valorizo. Apenas faço a opção por não comprar e já li toda a Calafrio, por exemplo, de graça em scans de ótima qualidade obtidos em sites como o QuadriKomics e QuadriBrasil. Foi neste último, aliás, que baixei a curiosa Cobra, adaptação tosca por Watson do filme homônimo estrelado por um Stallone quando era um ótimo ator (sim, eu adorava o cara). Só que essa HQ ficou bastante tempo no HD e nunca a li, até ontem. E, cara, que momento nostálgico. Como foi bom relembrar aquela infância onde queríamos ser como os caras justos e turrões do cinema, onde bandido bom era bandido morto e não havia lugar para o vitimismo barato nem para a massa de pizza livre de ovos e lactose. Para completar o momento, faltou apenas a edição ser física, com cheiro de papel jornal velho. Mas valeu a pena. Bendita seja a Grande Rede que nos proporciona ter acesso fácil a materiais como esse, praticamente impossíveis de ser adquiridos hoje em dia. Para quem quiser ler o gibi, basta acessar este link. A HQ é uma apoteose do mau gosto, com todos os elementos mais clichês e típicos da produção nacional em sua fase áurea. Diversão garantida por, talvez, dez minutos de leitura.


* * *

A espetacular Brigitte Nielsen em cena do filme.
Para quem desconhece o filme, basicamente se trata da trama onde um exército secreto de psicopatas planeja implantar seu admirável mundo novo por meio de sucessivos atos de violência urbana, como roubos, assassinatos cruéis de mulheres, abusos sexuais inclusive de criança entre outras condutas típicas de revolucionários. Os "ativistas" da produção, contudo, realmente têm sangue nos olhos e levam a cabo seus desígnios. Eles apenas não esperavam topar com o agente Marion Cobretti (vulgo "Cobra"), o clichê macho alfa roliudiano que, se antes abundava nas telonas, hoje é praticamente proibido de ser retratado. O roteiro foi elaborado sobre Fair Game de Paula Gosling. Em 1995, a mesma novela ganhou outra adaptação para o cinema (Atração Explosiva, no Brasil), com  Cindy Crawford e William Baldwin nos papéis principais. Na adaptação de 1986, a belíssima dama indefesa ficou com Brigitte Nielsen, ex-esposa de Sylvester Stallone, com quem já havia atuado em Rocky IV. É um bom filme; mexeu com a cabeça da molecada de minha geração. Ação comum da década de '80, com homens protetores, mulheres gentis e lições de códigos morais. Hoje, seria um péssimo exemplo para as crianças.


* * *

Especialmente no início deste espaço, sempre optei por compartilhar meu gosto por antigas HQs de terror nacionais. Foi neste gênero que tivemos a melhor fase dos quadrinhos nacionais, com milhares de tiragens sendo vendidas nas bancas ou por vale postal e cheque nominal às editoras, pelos Correios. Os sebos de minha cidade viviam atulhados de HQs como Calafrio, Spektro(s) e Mestres do Terror. Mas não montes de revistas parados; era uma movimentação intensa de trocas, compras e vendas, com novidades a cada semana. Tenho, hoje, bastante saudade daqueles sebos. Se pudesse realizar um desejo, seria, com a grana que possuo atualmente, poder visitar espaços iguaizinhos aqueles e comprar tudo o que, à época, sempre quisera.

Na década de '60, houve a efervescência no mercado de quadrinhos de terror e suspense. Editoras afloraram em nossa terrinha e grande nomes surgiram. Dentre a multiplicação de editoras, podemos citar: EBAL, Vecchi, Paladino, D'Arte, Abril Press Editorial, Noblet, Cluq, Catânia, Kultus e IGB. Contudo, na década seguinte, várias fecharam as portas e o mercado passou a se manter aos trancos e barrancos, ainda mais com a inflação cada vez galopante, que às vezes tonava uma publicação deficitária, já que, estando à venda, não cobria mais o custo anterior com sua produção. Nem as tabelas dos jornaleiros (onde checávamos valores e publicações pelo dia, consultando códigos) salvavam por completo uma linha editorial.

Contudo, ainda que em maus momentos, as publicações de terror/horror se mantiveram firmes em '80. E pudemos curtir caras como Mozart Couto, Eugênio Colonesse, Jayme Cortez e Adolfo Zalla em pleno vapor. Para mim, o maior gênio no meio desse caldo artístico sempre foi Flávio Colin; acho-o, aliás, o melhor traço dos quadrinhos do planeta. Passei boa parte do começo de '90 absorvendo histórias que esses caras havia criados anos atrás. Aqui, como mencionei acima, sempre dediquei postagens a recordar algumas dessas publicações. Confiram, por exemplo: a) Saga de Terror, HQ de Jayme Cortez, resenha [ https://goo.gl/5BvGwp ] e arquivo digital [ https://goo.gl/eWYhwd ]; b) Fantasmagoriana & Outros Contos Sombrios, resenhada neste blogue [ https://goo.gl/GZoWFt ] e, para baixar, acesse: https://goo.gl/Ogwc8I; c) Estórias Gerais pela Ed. Nemo, com breve comentários no link https://goo.gl/K2Ncvz e indicação de coletânea digital Flávio Colin em https://goo.gl/JMPkIb; d) Os Grandes Momentos de Mirza, a Mulher-Vampiro, nossa Vampirella resenhada em postagem meio antiga deste espaço [ https://goo.gl/OSakUz ] e com download gratuito [ https://goo.gl/OqN12C ]. Outras postagens podem ser pesquisadas por você, leitor interessando neste nicho profícuo e perdido de nossas prensas.

É interessante destacar que, mesmo naquela época áurea, diversos artistas discutiam a "necessidade" de haver, no Brasil, reserva de mercado para publicações nacionais. Coloquei "necessidade" entre aspas porque esta se limita a eles, certamente. A do leitor sempre é relegada a segundo plano. Costumeiramente sou contrário a essa patuscada e acho o movimento que perdura até hoje por esse "cotão" infantil e emblemático: somos mesmo uma nação de vitimistas chorões. Na época, o elevado nível gráfico e dos roteiros das publicações Warren não estimularam os artistas brazucas a melhorar; pelo contrário, começaram a se unir em busca de proteção estatal contra a "invasão" daqueles trabalhos extremamente sofisticados. Abaixo, transcrevo palavras do próprio Mozart Couto acerca do assunto:
Tô ficando apavorado com as revistas da D'Arte! Você viu o último número de Mestres? Só tem HQ's certinhas, paradinhas e com desenhozinhos bonitinhos (inclusive os nossos), mas nada que dê impacto. Depois de acostumar-se com Kripta, acho que os leitores não vão ter muito saco para continuar aguentando tanto terror clássico (também conhecido como sacal) - jogue essa carta fora (pelo amor de Deus), pois se alguém lê eu perco a boquinha!
A carta acima foi publicada na edição Especial de Terror n.º 01 de 1986, pela editora Press. Conquanto seja fã dos caras e das publicações nacionais do gênero, não posso me eximir de expressar o que penso em relação a essa covardia pátria, decorrente do paternalismo brasileiro e de nosso comodismo em arregaçar as mangas e ir pro pau. Vergonhoso.

Notícia presente em Spektros n.º 02.

Abraços e até a próxima.
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